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XII

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XII

(...)


E o ancião me disse:


"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e

milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de

consciência.


"Os Delegados da Nação, que não contam com o

voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.


"Porque o vosso povo, que não tem consciência,

por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que

lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um

chefe de partido às tontas improvisado.


"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma

nota desacreditada, com que por engodo lhe terão

arremessado.


"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em

que ele devia ser soberano e impor lei aos homens

que os espezinham!


"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em

que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por

um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo

da sua ignomínia!


"E os vossos homens de estado estribam-se nas

revoluções como num ponto de apoio, e como as

salamandras, eles querem viver no elemento que a

todos asfixia.


"E não pelejais por amor do progresso, como

vangloriosamente ostentais.


"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —

e o que realizar uma obterá a outra.


"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque

a vossa política não é de idéias — porém de cousas.


"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas

palavras — egoísmo e loucura — ".


Assim falou o ancião.


Poema integrante da série Capítulo III.


In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8


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Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias foi um poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro. Um grande expoente do romantismo brasileiro. Filho de um comerciante português e uma mestiça viveu em um meio social conturbado. Em 1862, Gonçalves Dias foi para a Europa para tratamento de saúde. Sem resultados embarcou de volta no dia 10 de setembro de 1864, porém o navio francês Ville de Boulogne em que viajava, naufragou perto do Farol de Itacolomi, onde o poeta faleceu com 41 anos de idade.