imagem alusiva a Vós que, crentes em Cristos e Marias

Vós que, crentes em Cristos e Marias

PoetMi.com

Vós que, crentes em Cristos e Marias

Vós que, crentes em Cristos e Marias,


Turvais da minha fonte as claras águas


Só para me dizerdes


Que há águas de outra espécie



Banhando prados com melhores horas, –


Dessas outras regiões pra que falar-me


Se estas águas e prados


São de aqui e me agradam?



Esta realidade os deuses deram


E para bem real a deram externa.


Que serão os meus sonhos


Mais que a obra dos deuses?



Deixai-me a Realidade do momento


E os meus deuses tranquilos e imediatos


Que não moram no Vago


Mas nos campos e rios.



Deixai-me a vida ir-se pagamente


Acompanhada plas avenas ténues


Com que os juncos das margens


Se confessam de Pã.



Vivei nos vossos sonhos e deixai-me


O altar imortal onde é meu culto


E a visível presença


Dos meus próximos deuses.



Inúteis Procos do melhor que a vida,


Deixai a vida aos crentes mais antigos


Que a Cristo e a sua cruz


E Maria chorando.



Ceres, dona dos campos, me console


E Apolo e Vénus, e Urano antigo


E os trovões, com o interesse


De irem da mão de Jove.




09/08/1914

Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


No poetmi desde

Avatar do autor do poema

Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.