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Versos a um Artista

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Versos a um Artista

A Olavo Bilac

Tu artista, com zelo,

Esmerilha e investiga!

Níssia, o melhor modelo

Vivo, oferece, da beleza antiga.

Para esculpi-la, em vão, árduos, no meio

De esbraseada arena,

Batem-se, quebram-se em fatal torneio,

Pincel, lápis, buril, cinzel e pena.

A Afrodite pagã, que o pejo afronta,

Exposta nua do universo às vistas,

Dos seios duros na marmórea ponta

Amamentando gerações de artistas,

Não na excede; e, ao contrário, em sua rica

Nudez, por mil espelhos,

Mostra o que ela não mostra, de pudica,

Do colo abaixo e acima dos artelhos.

Analisa-a, sagaz, linha por linha,

E à tão sagaz minúcia apenas poupa

Tudo o que se não vê, mas se adivinha

Por sob a avara roupa...

Deixa que a roupa avara

Do peito o virginal tesoiro esconda,

E o mais, até... onde, perfeita e clara,

A barriga da perna se arredonda...

Basta-te à vista esperta

Revela-se, através do linho grosso,

O alabastro da espádua mal coberta,

E o Paros do pescoço.

Basta que traia, como trai, de leve,

O contorno flexuoso...

Basta esse rosto ideal - púrpura e neve -

E a curva grega do nariz gracioso.

Um quase nada basta, enfim, que traia

Ao teu olhar agudo,

Para que este deduza, tire, extraia

Daquele quase nada, quase tudo...


No poetmi desde 2022-08-15 02:00:24

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Raimundo Correia

Raimundo da Mota de Azevedo Correia magistrado, professor, diplomata e poeta, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de S. Francisco, em São Paulo, e exerceu sua profissão no cargo de Juiz de Direito no interior de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.