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Velha Fazenda - III

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Velha Fazenda - III

— "... Vi um por um, oh! provação tremenda!

Nunca me há de esquecer aquele dia!

Debandar os escravos da fazenda.


A esta, em idos tempos de alegria,

Chamara, porque as tinha, de "Esperança",

"Desengano" melhor lhe chamaria.


Ah! dor nenhuma, como a da lembrança

Da ventura que foi, na desventura

Ferir mais fundo o coração alcança!


Tanta grandeza há pouco! e eis que da altura

Do meu sonho resvalo e me subverto

Chão adentro em rasgada sepultura!


Ergo-me, tonto ainda, olho — o deserto!

Falo — silêncio! movo os braços — nada!

Somente a solidão ao peito aperto.


Minha "Esperança" desesperançada!

Com que ouvidos te ouvi então o rouco

Arrastado mugido da boiada!


Pus-me a chorar, como criança ou louco,

(Esta fraqueza, amigo, não te encubro)

Pus-me a chorar. Naquele mês, em pouco,


A flor do cafezal, filha de Outubro,

Reclamando a colheita, a rir-se agora,

Já mudada se achava em fruto rubro.


Naquele mês a várzea se melhora

Com a estação mais regrada e água da serra;

Ao sol pompeando, todo caule enflora;


Viça o vesco faval, com o humor que encerra;

Os grãos amojam nas espigas de ouro;

Racha com as grossas túberas a terra.


Mas com que mãos colher tanto tesouro?

As mãos Maio as levou, levando o escravo,

Maio agora tornado sestro agouro.


Meu mal, assim pensando, aflito agravo;

Nas terras, nas lavouras em abandono

Em desesperação os olhos cravo.


Depois, a pouco e pouco, um meio sono

Me vem. Olho estas cousas com fastio,

E deixo-as ir, como se vai sem dono


Barco largado na tensão do rio."


Publicado no livro Poesias, 1904/1911: terceira série (1913). Poema integrante da série Natália.


In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense


No poetmi desde 2022-10-01 01:36:54

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Alberto de Oliveira

Antônio Mariano de Oliveira, foi um poeta, professor e farmacêutico brasileiro. Figura como líder do Parnasianismo brasileiro, na famosa tríade Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac.