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TRAMWAY

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Aqui vou eu num carro eléctrico, mais umas trinta ou quarenta pessoas,

Cheio (só) das minhas ideias imortais, (creio que boas).


Amanhã elas, postas em verso, serão

Por toda a Europa, por todo o mundo (quem sabe?!)

Triunfo meta, início, clarão

Que talvez não acabe.


E quem sobe? Que sente? O que vai a meu lado

Só sente em mim que sou o que, estrangeiro,

Tem o lugar da ponta, e do extremo, apanhado

Por quem entra primeiro.


Que o que vale são as ideias que tenho, enfim,

O resto, o que aqui está sentado, sou eu,

Vestido, visual, regular, sempre em mim,

Sob o azul do céu.


Ah, Destino dos deuses, dai-me ao menos o siso

Ao que em mim pensa a vida de ter um profundo

Senso essencial, mas certeiro e conciso

Da vida e do mundo!


Sei, sob o céu que é que toca as minhas ideias,

Sob o céu mais análogo ao que penso comigo

Que este carro vai com os bancos cheios

Para onde eu sigo.


E o ponto de absurdo de tudo isto qual é?

Onde é que está aqui o erro que sinto?

A minha razão enternecida aqui perde pé

E pensando minto,


Mas a que verdade minto, que ponte,

Há entre o que é falso aqui e o que é certo?

Se o que sinto e penso, não sei sequer como o conte,

Se o que está a descoberto


Agora no meu meditar é uma treva e um abismo

Que hei-de fazer da minha consciência dividida?

Oh, carro absurdo e irreal, onde está quanto cismo?

De que lado é que é a vida?

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.