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Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.

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Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.

Tornar-te-ás só quem tu sempre foste.


O que te os deuses dão, dão no começo.


De uma só vez o Fado


Te dá o fado, que é um.



A pouco chega pois o esforço posto


Na medida da tua força nata –


A pouco, se não foste


Para mais concebido.



Contenta-te com seres quem não podes


Deixar de ser. Ainda te fica o vasto


Céu p'ra cobrir-te, e a terra,


Verde ou seca a seu tempo.



O fausto repudio, porque o compram.


O amor porque acontece.


Comigo fico, talvez não contente.


Porém nato e sem erro.



Eu não procuro o bem que me negaram.


As flores dos jardins herdadas de outros.


Como hão-de mais que perfumar de longe


Meu desejo de tê-las?



Não quero a fama, que comigo a têm


Eróstrato e o pretor


Ser olhado de todos – que se eu fosse


Só belo, me olhariam.




12/05/1921

Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


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Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.