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SAUDAÇÃO [b]

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SAUDAÇÃO [b]

Heia? Heia o quê e porquê?

O que tiro eu de heia! ou de qualquer coisa,

Que valha pensar em heia!?

Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...

No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,

E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio

Mas o Império finda nas nossas veias aguadas

E a Poesia foi a da nossa incompetência para agir...

Tu, cantador de profissões enérgicas, Tu o Poeta do Extremo, do Porto,

Tu, músculo da inspiração, com musas masculinas por destaque,

Tu, afinal, inocente em viva histeria,

Afinal apenas “acariciador da vida”,

Mole ocioso, paneleiro pelo menos na intenção,

— Bem... isso era contigo — mas onde é que aí está a Vida?


Eu, engenheiro como profissão, Farto de tudo e de todos,

Eu, exageradamente supérfluo, guerreando as coisas

Eu, inútil, gasto, improfícuo, pretensioso e amoral,

Bóia das minhas sensações desgarradas pelo temporal,

Âncora do meu navio já quebrada pr'ó fundo

Eu feito cantor da Vida e da Força — acreditas?

Eu, como tu, enérgico, salutar, nos versos —

E afinal sincero como tu, ardendo em ter toda a Europa no cérebro,

No cérebro explosivo e sem diques,

Na inteligência mestra e dinâmica,

Na sensualidade carimbo, projector, marca, cheque

P’ra que diabo vivemos, e fazemos versos?

Raios partam a mandriice que nos faz poetas,

A degenerescência que nos engana artistas,

O tédio fundamental que nos pretende enérgicos e modernos,

Quando o que queremos é distrair-nos, dar-nos ideia da vida

Porque nada fazemos e nada somos, a vida corre-nos lenta nas veias.

Vejamos ao menos, Walt, as coisas bem pela verdade...

Bebamos isto como um remédio amargo

E concordemos em mandar à merda o mundo e a vida

Sem quebranto no olhar, e não por desprezo ou aversão


Isto, afinal é saudar-te?

Seja o que for, é saudar-te,

Seja o que valha, é amar-te,

Seja o que calhe, é concordar contigo...

Seja o que for é isto. E tu compreendes, tu gostas,

Tu, a chorar no meu ombro, concordas, meu velho, comigo —

(Quando parte o último comboio? —

Vilegiatura em Deus...)

Vamos, confiadamente, vamos...

Isto tudo deve ter um outro sentido

Melhor que viver e ter tudo...

Deve haver um ponto da consciência

Em que a paisagem se transforme

E comece a interessar-nos, a acudir-nos, a sacudir-nos...

Em que comece ti haver fresco na alma

E sol e campo nos sentidos despertos [...]

Seja onde for a Estação, lá nos encontraremos...

Espera-me à porta, Walt; lá estarei...

Lá estarei sem o universo, sem a vida, sem eu-próprio, sem nada...

E relembraremos, a sós, silenciosos, com a nossa dor

O grande absurdo do mundo, a dura inépcia das coisas

E sentirei, o mistério sentirei tão longe, tão longe, tão longe,

Tão absoluta e abstractamente longe,

Definitivamente longe.

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.