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SAUDAÇÃO [a]

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SAUDAÇÃO [a]

SAUDAÇÃO


Um comboio de criança movido a corda, puxado a cordel

Tem mais movimento real do que os nossos versos...

Os nossos versos que não têm rodas

Os nossos versos que não se deslocam

Os nossos versos que, nunca lidos, não saem para fora do papel.

(Estou farto — farto da vida, farto da arte —,

Farto de não ter coisas, a menos ou a medo —

Rabo-leva da minha respiração chagando a minha vida,

Fantoche absurdo de feira da minha ideia de mim.

Quando é que parte o último comboio?)


Sei que cantar-te assim não é cantar-te — mas que importa?

Sei que é cantar tudo, mas cantar tudo é cantar-te,

Sei que é cantar-me a mim — mas cantar-me a mim é cantar-te a ti

Sei que dizer que não posso cantar é cantar-te, WaIt, ainda...

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.