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Satânia

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Satânia

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Nua, de pé, solto o cabelo às costas,

Sorri. Na alcova perfumada e quente,

Pela janela, como um rio enorme

De áureas ondas tranqüilas e impalpáveis,

Profusamente a luz do meio-dia

Entra e se espalha palpitante e viva.

Entra, parte-se em feixes rutilantes,

Aviva as cores das tapeçarias,

Doura os espelhos e os cristais inflama.

Depois, tremendo, como a arfar, desliza

Pelo chão, desenrola-se, e, mais leve,

Como uma vaga preguiçosa e lenta,

Vem lhe beijar a pequenina ponta

Do pequenino pé macio e branco.


Sobe... cinge-lhe a perna longamente;

Sobe... — e que volta sensual descreve

Para abranger todo o quadril! — prossegue.

Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,

Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,

Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo

Da axila, acende-lhe o coral da boca

E antes de se ir perder na escura noite,

Na densa noite dos cabelos negros,

Pára confusa, a palpitar, diante

Da luz mais bela dos seus grandes olhos.


E aos mornos beijos, às carícias ternas

Da luz, cerrando levemente os cílios,

Satânia os lábios úmidos encurva,

E da boca na púrpura sangrenta

Abre um curto sorriso de volúpia...

Corre-lhe à flor da pele um calefrio;

Todo o seu sangue, alvoroçado, o curso

Apressa; e os olhos, pela fenda estreita

Das abaixadas pálpebras radiando,

Turvos, quebrados, lânguidos, contemplam,

Fitos no vácuo, uma visão querida...


(...)


Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888). Poema integrante da série Sarças de Fogo.


In: BILAC, Olavo. Obra reunida. Org. e introd. Alexei Bueno. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996. p. 138-139. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)


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Olavo Bilac

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac foi um jornalista e poeta brasileiro.