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Quero, Neera, que os teus lábios laves

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Quero, Neera, que os teus lábios laves

Quero, Neera, que os teus lábios laves


Na nascente tranquila


Para que contra a tua febre e a triste


Dor que pões em viver,


Sintas a fresca e calma natureza


Da água, e reconheças


Que não têm penas nem desassossegos


As ninfas das nascentes


Nem mais soluços do que o som da água


Alegre e natural.


As nossas dores, não, Neera, vêm


Das causas naturais


Datam da alma e do infeliz fruir


Da vida com os homens.


Aprende pois, ó aprendiza jovem


Das clássicas delícias,


A não pôr mais tristeza que um suspiro


No modo como vives.


Nasceste pálida, deitando a regra


Da tua vã beleza


Sob a estólida fé das nossas mãos


Medrosas de ter gozo


Demasiado preso à desconfiança


Que vem de teu saber,


Não para essa vã mnemónica


Do futuro fatal.


Façamos vívidas grinaldas várias


De sol, flores e risos


Para ocultar o fundo fiel à Noite


Do nosso pensamento


Curvado já em vida sob a ideia


Do plutónico jugo


Cônscia já da lívida aguardança


Do caos redivivo.


Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


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Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.