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Quanto fui peregrino

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Quanto fui peregrino

Quanto fui peregrino

Do meu próprio destino!

Quanta vez desprezei

O lar que sempre amei!

Quanta vez rejeitando

O que quisera ter,

Fiz dos versos um brando

Refúgio de não ser!


E quanta vez, sabendo

Que a mim estava esquecendo,

E que quanto vivi –

Tanto era o que perdi –

Como o orgulhoso pobre

Ao rejeitado lar

Volvi o olhar, vil nobre

Fidalgo só no chorar...


Mas quanta vez descrente

Do ser insubsistente

Com que no Carnaval

Da minha alma irreal

Vestira o que sentisse

Vi quem era quem não sou

E tudo o que não disse

Os olhos me turvou...


Então, a sós comigo,

Sem me ter por amigo,

Criança ao pé dos céus,

Pus a mão na de Deus.

E no mistério escuro

Senti a antiga mão

Guiar-me, e fui seguro

Como a quem deram pão.


Por isso, a cada passo

Que meu ser triste e lasso

Sente sair do bem

Que a alma, se é própria, tem,

Minha mão de criança

Sem medo nem esperança

Para aquele que sou

Dou na de Deus e vou.


07/10/1930

Fernando Pessoa in Poesias Inéditas


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Fernando Pessoa

Escritor, Poeta e Filósofo Fernando Pessoa deixou-nos inúmeros poemas e reflexões tanto em seu nome como nos de seu heterônimos.