imagem alusiva a Profissão de Fé

Profissão de Fé

PoetMi.com

Profissão de Fé

Le poete est ciseleur,

Le ciseleur est poete.


Não quero o Zeus Capitolino,

Hercúleo e belo,

Talhar no mármore divino

Com o camartelo.


(...)


Invejo o ourives quando escrevo:

Imito o amor

Com que ele, em ouro, o alto relevo

Faz de uma flor.


(...)


Quero que a estrofe cristalina,

Dobrada ao jeito

Do ourives, saia da oficina

Sem um defeito:


(...)


Porque o escrever — tanta perícia,

Tanta requer,

Que ofício tal... nem há notícia

De outro qualquer.


Assim procedo. Minha pena

Segue esta norma,

Por te servir, Deusa serena,

Serena Forma!


Deusa! A onda vil, que se avoluma

De um torvo mar,

Deixa-a crescer; e o lodo e a espuma

Deixa-a rolar!


(...)


Não morrerás, Deusa sublime!

Do trono egrégio

Assistirás intacta ao crime

Do sacrilégio.


E, se morreres porventura,

Possa eu morrer

Contigo, e a mesma noite escura

Nos envolver!


(...)


Vive! que eu viverei servindo

Teu culto, e, obscuro,

Tuas custódias esculpindo

No ouro mais puro.


Celebrarei o teu ofício

No altar: porém,

Se inda é pequeno o sacrifício,

Morra eu também!


Caia eu também, sem esperança,

Porém tranquilo,

Inda, ao cair, vibrando a lança,

Em prol do Estilo!


Publicado no livro Poesias, 1884/1887 (1888).


In: BILAC, Olavo. Poesias. Posfácio R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 1978


NOTA: Estilização de imagens do poema "L'Art", do livro ÉMAUX ET CAMMÉES (1852), de Théophile Gautier. Observe a tradução desse poema, por Onestaldo de Pennafort, no livro ESPELHO D'ÁGUA (1931


No poetmi desde

Avatar do autor do poema

Olavo Bilac

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac foi um jornalista e poeta brasileiro.