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PECADO ORIGINAL

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PECADO ORIGINAL

PECADO ORIGINAL


Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade.


O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;

O que não há somos nós, e a verdade está aí.


Sou quem falhei ser.

Somos todos quem nos supusemos.

A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.


Que é daquela nossa verdade – o sonho à janela do infância?

Que é daquela nossa certeza – o propósito à mesa de depois?


Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas

Sobre o parapeito alto da janela de sacada,

Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.


Que é da minha realidade, que só tenho a vida?

Que é de mim, que sou só quem existo?


Quantos Césares fui!


Na alma, e com alguma verdade;

Na imaginação, e com alguma justiça;

Na inteligência, e com alguma razão –

Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!

Quantos Césares fui!


07/12/1933

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.