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Os deuses desterrados, [1]

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Os deuses desterrados, [1]

Os deuses desterrados,


Os irmãos de Saturno,


Às vezes, no crepúsculo


Vêm espreitar a vida.



Vêm então ter connosco


Remorsos e saudades


E sentimentos falsos.


É a Presença deles,


Deuses que o destroná-los


Tornou espirituais,


De matéria vencida,


Longínqua e inactiva.



Vêm, inúteis forças,


Solicitar em nós


As dores e os cansaços,


Que nos tiram da mão,


Como a um bêbedo mole,


A taça da alegria.



Vêm fazer-nos crer,


Despeitadas ruínas


De primitivas forças,


Que o mundo é mais extenso


Que o que se vê e palpa,


Para que ofendamos


A Júpiter e a Apolo.



Assim até à beira


Terrena do horizonte


Hipérion no crepúsculo


Vem chorar pelo carro


Que Apolo lhe roubou.



E o poente tem cores


Da dor dum deus longínquo


E ouve-se soluçar


Para além das esferas...


Assim choram os deuses.




12/06/1914

Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


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Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.