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Não sem lei, mas segundo leis diversas

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Não sem lei, mas segundo leis diversas

Não sem lei, mas segundo leis diversas


Entre os homens reparte o fado e os deuses


Sem justiça ou injustiça


Prazeres, dores, gozos e perigos.



Bem ou mal, não terás o que mereces.


Querem os deuses a isto obrigar


Porque o Fado não tem


Leis nossas com que reja a sua lei.



Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza


Com o escravo de ontem que é depois rei.


Sem razão um caiu,


Sem causa nele o outro ascenderá.



Não em nós, mas dos deuses no capricho


E nas sombras p'ra além do seu domínio


Está o que somos, e temos,


A vida e a morte do que somos nós.



Se te apraz mereceres, que te apraza


Por mereceres, não porque te o Fado


Dê o prémio ou a paga


De com constância haveres merecido.



Dúbia é a vida, inconstante o que a governa.


O que esperamos nem sempre acontece


Nem nos falece sempre,


Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere.



Torna teu coração digno dos deuses


E deixa a vida incerta ser quem seja.


O que te acontecer


Aceita. Os deuses nunca se rebelam.



Nas mãos inevitáveis do destino


A roda rápida soterra hoje


Quem ontem viu o céu


Do transitório auge do seu giro.


Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


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Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.