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IV

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IV

(...)


E nessas cidades, vilas e aldeias, nos seus cais,

praças e chafarizes — vi somente — escravos!


E à porta ou no interior dessas casas mal construídas

e nesses palácios sem elegância — escravos!


E no adro ou debaixo das naves dos templos — de

costas para as imagens sagradas, sem temor, como

sem respeito — escravos!


E nas jangadas mal tecidas — e nas canoas de um

só toro de madeira — escravos; — e por toda a parte

— escravos!!...


Por isto o estrangeiro que chega a algum porto do

vasto império — consulta de novo a sua derrota e

observa atentamente os astros — porque julga que

um vento inimigo o levou às costas d'África.


E conhece por fim que está no Brasil — na terra

da liberdade, na terra ataviada de primores e esclarecida

por um céu estrelado e magnífico!


Mas grande parte da sua população é escrava —

mas a sua riqueza consiste nos escravos — mas o

sorriso — o deleite do seu comerciante — do seu

agrícola — e o alimento de todos os seus habitantes

é comprado à custa do sangue do escravo!


E nos lábios do estrangeiro, que aporta ao Brasil,

desponta um sorriso irônico e despeitoso — e ele diz

consigo, que a terra — da escravidão — não pode

durar muito; porque ele é crente, e sabe que os

homens são feitos do mesmo barro — sujeitos às

mesmas dores e às mesmas necessidades.


Poema integrante da série Capítulo I.


In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.10-1


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Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias foi um poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro. Um grande expoente do romantismo brasileiro. Filho de um comerciante português e uma mestiça viveu em um meio social conturbado. Em 1862, Gonçalves Dias foi para a Europa para tratamento de saúde. Sem resultados embarcou de volta no dia 10 de setembro de 1864, porém o navio francês Ville de Boulogne em que viajava, naufragou perto do Farol de Itacolomi, onde o poeta faleceu com 41 anos de idade.