imagem alusiva a II

II

PoetMi.com

II

E a visão levou-me insensivelmente dos homens da

natureza aos que chamamos civilizados.


Uma infinidade de navios aportavam a todos os

pontos do vasto Império, como se dos fundos mares

surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos

sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.


(...)


Não eram homens crentes, que por amor da religião

viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas

sedentos de glória em busca de renome.


Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam

um pouco de ouro, pregando a religião de

Cristo com armas ensangüentadas.


Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,

destroçando uma multidão inerme e bárbara,

opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem

gume.


Eram homens que pregavam a igualdade tratando

os indígenas como escravos — envilecendo-os com a

escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.


E o país tornou-se a sentina impura de um povo

pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,

os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua

população.


Então começou a luta sanguinolenta dos homens

dominadores contra os homens que não queriam ser

dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos

contra os bárbaros.


(...)


E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima

e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo

Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com

o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do

ouro sem o amor do trabalho.


(...)


Poema integrante da série Capítulo III.


In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5


No poetmi desde

Avatar do autor do poema

Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias foi um poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro. Um grande expoente do romantismo brasileiro. Filho de um comerciante português e uma mestiça viveu em um meio social conturbado. Em 1862, Gonçalves Dias foi para a Europa para tratamento de saúde. Sem resultados embarcou de volta no dia 10 de setembro de 1864, porém o navio francês Ville de Boulogne em que viajava, naufragou perto do Farol de Itacolomi, onde o poeta faleceu com 41 anos de idade.