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Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada

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"Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada Caiu" é um poema de Alberto Caeiro, um dos heterônimos utilizados por Fernando Pessoa para escrever sua poesia. Este poema fala sobre o valor e a importância de não pensar em nada e de se permitir simplesmente ser. O poeta afirma que há "metafísica bastante" em não pensar em nada, e que essa atitude é uma maneira de se conectar com a natureza e com a verdade. O poema também fala sobre a importância de se deixar levar pelo presente e pelo momento, e de não se preocupar com o passado ou com o futuro. Ao longo do poema, Alberto Caeiro utiliza imagens e metáforas da natureza para expressar seu ponto de vista. Ele fala sobre o sol brilhando e a chuva caindo, sobre as folhas caindo das árvores e sobre o vento soprando, como símbolos da vida e do ciclo natural das coisas. O poema é uma reflexão sobre a vida e sobre o valor de se estar presente e de se permitir ser, e convida o leitor a se conectar com essa mesma atitude.

Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei.Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o sol

E a pensar muitas cousas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das cousas"...

"Sentido íntimo do Universo"...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em cousas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das cousas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das cousas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as cousas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos


No poetmi desde 2022-12-25 16:27:02

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Alberto Caeiro

Alberto Caeiro, embora seja um heterónimo de Fernando Pessoa, é um poeta tão grandioso e autêntico como seu criador, sendo chamado de “Mestre” pelos outros heterónimos. Era considerado racional e objetivo. Escreveu O Guardador de Rebanhos, um conjunto de 49 poemas.