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Glosa a mote alheio

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Glosa a mote alheio

"Vejo-a na alma pintada,

Quando me pede o desejo

O natural que não vejo."


Se só no ver puramente

Me transformei no que vi,

De vista tão excelente

Mal poderei ser ausente,

Enquanto o não for de mi.

Porque a alma namorada

A traz tão bem debuxada

E a memória tanto voa,

Que, se a não vejo em pessoa,

"Vejo-a na alma pintada."


O desejo, que se estende

Ao que menos se concede,

Sobre vós pede e pretende,

Como o doente que pede

O que mais se lhe defende.

Eu, que em ausência vos vejo,

Tenho piedade e pejo

De me ver tão pobre estar,

Que então não tenho que dar,

"Quando me pede o desejo."


Como àquele que cegou

É cousa vista e notória,

Que a Natureza ordenou

Que se lhe dobre em memória

O que em vista lhe faltou,

Assim a mim, que não rejo

Os olhos ao que desejo,

Na memória e na firmeza

Me concede a Natureza

"O natural que não vejo."


No poetmi desde 2022-08-03 18:25:00

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Luís Vaz de Camões

Poeta, Camões deixou-nos belos poemas e reflexões.