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Feliz aquele a quem a vida grata

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Feliz aquele a quem a vida grata

Feliz aquele a quem a vida grata


Concedeu que dos deuses se lembrasse


E visse como eles


Estas terrenas coisas onde mora


Um reflexo mortal da imortal vida.


Feliz, que quando a hora tributária


Transpor seu átrio porque a Parca corte


O fio fiado até ao fim,


Gozar poderá o alto prémio


De errar no Averno grato abrigo


Da convivência.



Mas aquele que quer Cristo antepor


Aos mais antigos Deuses que no Olimpo


Seguiram a Saturno –


O seu blasfemo ser abandonado


Na fria expiação – até que os Deuses


De quem se esqueceu deles se recordem –


Erra, sombra inquieta, incertamente,


Nem a viúva lhe põe na boca


O óbolo a Caronte grato,


E sobre o seu corpo insepulto


Não deita terra o viandante.




11-12/09/1916

Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


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Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.