imagem alusiva a Encostei-me para trás

Encostei-me para trás

PoetMi.com

Encostei-me para trás

Encostei-me

para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,

E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.

A minha vida passada misturou-se com a futura,

E houve no meio um ruído do salão de fumo,

Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.

Ah,

balouçado

Na sensação das ondas,

Ah, embalado

Na idéia tão confortável de hoje ainda não

ser amanhã,

De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,

De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,

Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah,

afundado

Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,

Irrequieto tão sossegadamente,

Tão análogo de repente à criança que fui

outrora

Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,

Nem as outras álgebras com x e ys de sentimento.

Ah,

todo eu anseio

Por esse momento sem importância nenhuma

Na minha vida,

Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos

---

Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,

Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem

inteligência para o compreender

E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


No poetmi desde

Avatar do autor do poema

Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.