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E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem

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E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem

E se todos ligam pouca importância à morte, nem conseguem

Sofrendo, ter verdadeiramente a concentração de sofrer,

É que a vida não crê na morte, é que a morte é nada.


Embandeira em arco, a todas as cores, ao vento

Sob o grande céu luminoso e azul da terra...

Danças e cantos,

Músicas alacres,

Ruídos de risos e falas, e conversas banais,

Acolham a morte que vem, porque a morte não vem,

E a vida sente em todas as suas veias,

O corpo acha em tudo o que nele é alma,

Que a vida é tudo, e a morte é nada, e que o abismo

É só a cegueira de ver,

Que tudo isto não pode existir e deixar de existir,

Porque existir é ser, e ser não se reduz ao nada.

Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz,

Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente,

Se todo este mundo natural, social, intelectual,

Estes corpos nus por baixo das vestes naturais,

Se isto é ilusão, porque é que isto está aqui?

Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!

Se isto não é, porque é que é?

Se isto não pode ser, então porque pôde ser?


Acolhei-a, ao chegar,

A ela, à Morte, a esse erro da vista,

Com os cheiros dos campos, e as flores cortadas trazidas ao colo,

Com as romarias e as tardes pelas estradas,

Com os ranchos festivos, e os lares contentes,

Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa,

Com todo o vasto mar movimentado da vida.


Acolhei-a sem medo,

Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre,

Acolhe o viajante que há-de chegar no comboio de Além.

Acolhei-a contentes,

Crianças cantando de riso, corpos de jovens em fogo,

Alegria rude e natural das tabernas,

E os braços e os beijos e os sorrisos das raparigas.


Embandeira em arco a cores de sangue e verde,

Embandeira em arco a cores de luz e de fogo,

Que a morte é a vida que veio mascarada,

E o além será isto, isto mesmo, noutro presente

Não sei de que novo modo diversamente.

Gritai às alturas,

Gritos pelos vales,

Que a morte não tem importância nenhuma,

Que a morte é um [suposto?],

Que a morte é um (...)

E que se tudo isto é um sonho, é a morte um sonho também.

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.