imagem alusiva a Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

PoetMi.com

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe


Mais flores do que Flora pelos campos,


Nem dá de Apolo ao carro


Outro curso que Apolo.



Contemplação estéril e longínqua


Das coisas próximas, deixemos que ela


Olhe até não ver nada


Com seus cansados olhos.



Vê como Ceres é a mesma sempre


E como os louros campos entumece


E os cala prás avenas


Dos agrados de Pã.



Vê como com seu jeito sempre antigo


Aprendido no orige azul dos deuses,


As ninfas não sossegam


Na sua dança eterna.



E como as hamadríades constantes


Murmuram pelos ramos das florestas


E atrasam o deus Pã


Na atenção à sua flauta.



Não de outro modo mais divino ou menos


Deve aprazer-nos conduzir a vida,


Quer sob o ouro de Apolo


Ou a prata de Diana.



Quer troe Júpiter nos céus toldados,


Quer apedreje com as suas ondas


Neptuno as planas praias


E os erguidos rochedos.



Do mesmo modo a vida é sempre a mesma.


Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.


Por isso as esqueçamos


Como se não houvessem.



Colhendo flores ou ouvindo as fontes


A vida passa como se temêssemos.


Não nos vale pensarmos


No futuro sabido



Que aos nossos olhos tirará Apolo


E nos porá longe de Ceres e onde


Nenhum Pã cace à flauta


Nenhuma branca ninfa.



Só as horas serenas reservando


Por nossas, companheiros na malícia


De ir imitando os deuses


Até sentir-lhe a calma.



Venha depois com as suas cãs caídas


A velhice, que os deuses concederam


Que esta hora por ser sua


Não sofra de Saturno



Mas seja o templo onde sejamos deuses


Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios


Nem precisam de crentes


Os que de si o foram.

Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


No poetmi desde

Avatar do autor do poema

Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.