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Conselhos

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Conselhos

Vogar mais não vale a pena,

Amarra o barco a esta bóia;

Não traves por outra Helena

Segunda guerra de Tróia.


Ouve um conselho de amigo:

Deixa de muito escolher;

Eu das mulheres só digo

O que ouço a todos dizer.


Dizem de Cora que, quando

Entra nos bailes, namora,

Valsa demais, e, valsando

A perna mostra, e... não cora;


Nem por ver, dessa maneira,

Que a perna que mostra, em vão,

Não é de osso e carne inteira,

Mas metade de... algodão.


De Pacífica, que à-toa

Sem razão se assanha e briga;

E de Modesta (perdoa)!

Que traz o rei na barriga...


Prudência — em nada é cordata;

Benigna — maus modos tem;

E ao noivo de Fortunata

A sorte grande não vem.


Os papalvos certos ficam

De que não são, nem metade

Do que seus nomes indicam,

Severa e Felicidade:


Aquela — vale um pagode;

E desta outra o vulgo diz,

Que é feliz, como se pode

Na desgraça ser feliz;


Plácida — é plácida e mansa,

Como onça ou como leoa;

E é, bem sabes, Esperança

O desespero em pessoa.


Inocência — de pecados

Está cheia, como vês;

Diferentes namorados

Tem Constância, em cada mês;


Muito avara é — Generosa;

Angélica — é muito ingrata;

E até, com língua maldosa,

Dizem que Branca é... mulata.


Rosa é bela? Embora o seja,

(Se nos espinhos não for)

Semelhante, há lá quem veja,

Mulher-rosa à rosa-flor?!


E pois, que inda em tempo chego

Com meus conselhos: — se queres

Ter na vida mais sossego,

Deixa em sossego as mulheres.


Ao pé da letra as não tomes,

Porque as mulheres estão,

Até com seus próprios nomes,

Em viva... contradição.


Poema integrante da série Poesias Avulsas.


No poetmi desde 2022-08-15 02:00:24

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Raimundo Correia

Raimundo da Mota de Azevedo Correia magistrado, professor, diplomata e poeta, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo de S. Francisco, em São Paulo, e exerceu sua profissão no cargo de Juiz de Direito no interior de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.