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Confissão dos Olhos

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Confissão dos Olhos

Na sala, muita vez, junto aos que estão contigo,

Noto entrando que ao ver-me, entre surpresa e enleio

Ficas, como se acaso um sofrimento antigo

Eu te viesse acordar lá no íntimo do seio.


Por que enleio e surpresa? Olham-te, e empalideces;

Pões a vista no chão, fazes que desconheces

Estar ao pé de ti quem te perturba; acaso

Vais distraída; aqui tocas a flor de um vaso,

Ali de um velho quadro atentas na gravura;

Achegas-te à janela, olhas a tarde pura,

Voltas. De face então vês-me a estremecer. Quase

Disseste o que dizer te anseia há muito; a frase

Íntima, breve e ardente, em teu lábio purpúreo

Aflou num palpitar, fez ouvir um murmúrio,

Mas refluiu... Em torno atentos te encaravam.

Foi quando para mim teus grandes olhos voaram,

Voaram, vieram, assim como do firmamento

Duas estrelas, e a alma unindo a um pensamento

Único, em fluido a escoar dos raios de ouro em molhos,

Somem-se em mudo assombro, abismam-se em meus olhos.


E em minh'alma, lá dentro, eu sinto então, querida,

Que eles deixam cair, no ardor em que me inflamo,

Ah! e com que calor, com que sede de vida!

Letra a letra, a tremer, o teu segredo: Eu te amo!


Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma Livre, 1898/1901.


In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense


No poetmi desde 2022-10-01 01:36:54

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Alberto de Oliveira

Antônio Mariano de Oliveira, foi um poeta, professor e farmacêutico brasileiro. Figura como líder do Parnasianismo brasileiro, na famosa tríade Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac.