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Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.

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Cedo demais vem sempre, Cloé, o inverno.

Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.


É sempre prematuro, inda que o espere


Nosso hábito, o esfriar


Do desejo que houve.



Não entardece que não morra o dia.


Não nasce amor ou fé em nós que não


Morra com isso ao menos


O não amar ou crer.



Todo o gesto que o nosso corpo faz


Com o repouso anterior contrasta.


Nesta má circunstância


Do tempo eternos somos.



Só sabe da arte com que viva a vida


Aquele que, de tão contínua usá-la,


Furte ao tempo a vitória


Das mudanças depressa,



E entardecendo como um dia trópico,


Até ao fim inevitável guie


Uma igual vida, súbito


Precipite no abismo.


Ricardo Reis in Odes de Ricardo Reis


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Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.