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Canto Primeiro

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Canto Primeiro

(...)


Dos Gamelas um chefe destemido,

Cioso d'alcançar renome e glória,

Vencendo a fama, que os sertões enchia,

Saiu primeiro a campo, armado e forte,

Guedelha e ronco dos sertões imensos,

Guerreiros mil e mil vinham trás ele,

Cobrindo os montes e juncando as matas.

Com pejado carcaz de ervadas setas

Tingidas d'urucu, segundo a usança

Bárbara e fera, desgarrados gritos

Davam no meio das canções de guerra.


Chegou, e fez saber que era chegado

O rei das selvas a propor combate

Dos Timbiras ao chefe. — "A nós só caiba

(Disse ele) a honra e a glória; entre nós ambos

Decida-se a questão do esforço e brios.

Estes, que vês, impávidos guerreiros,

São meus, que me obedecem; se me vences,

São teus; se és o vencido, os teus me sigam:

Aceita ou foge, que a vitória é minha."


"Não fugirei", responde-lhe Itajuba,

"Que os homens, meus iguais, encaram fito

O sol brilhante, e os não deslumbra o raio".


"Serás, pois que me afrontas, torna o bárbaro,

Do meu valor troféu, — e da vitória,

Qu'hei de certo alcançar, despojo opimo.

Nas tabas em que habito ora as mulheres

Tecem da sapucaia as longas cordas,

Que os pulsos teus hão de arrochar-te em breve;

E tu vil, e tu preso, e tu coberto

D'escárnio e d'irrisão! — Cheio de glória,

Além dos Andes voará meu nome!"


O filho de Jaguar sorriu-se a furto:

Assim o pai sorri ao filho imberbe,

Que, desprezado o arco seu pequeno,

Talhado para aquelas mãos sem forças,

Tenta doutro maior curvar as pontas,

Que vezes três o mede em toda a altura!


Travaram luta fera os dois guerreiros.

Primeiro ambos de longe as setas vibram;

Amigos manitôs, que ambos protegem,

Nos ares as desgarram. Do Gamela

Entrou a frecha trêmula num tronco

E só parou no cerne; a do Timbira,

Ciciando veloz, fugiu mais longe,

Roçando apenas os frondosos cimos.

Encontram-se os Tacapes, lá se partem;

Ambos o punho inútil rejeitando,

Estreitam-se valentes: braço a braço,

Alentando açodados, peito a peito,

Revolvem fundo a terra aos pés, e ao longe

Rouqueja o peito arfado um som confuso.


(...)


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Publicado no livro Os Timbiras (1857).


In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.


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Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias foi um poeta, advogado, jornalista, etnógrafo e teatrólogo brasileiro. Um grande expoente do romantismo brasileiro. Filho de um comerciante português e uma mestiça viveu em um meio social conturbado. Em 1862, Gonçalves Dias foi para a Europa para tratamento de saúde. Sem resultados embarcou de volta no dia 10 de setembro de 1864, porém o navio francês Ville de Boulogne em que viajava, naufragou perto do Farol de Itacolomi, onde o poeta faleceu com 41 anos de idade.