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A PASSAGEM DAS HORAS [a]

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A PASSAGEM DAS HORAS [a]

Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,

Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,

E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão

Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.

Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,

E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.

Não me subordino senão por atavismo,

E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades

Acessíveis à imaginação

Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,

Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,

Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,

Vou ao lado dela sem ela saber.

No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,

Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.

Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda o parte.

O meu privilégio é tudo

(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo definitivamente.

Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,

Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,

Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,

Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta

Que não seja para mim por uma galantaria deposta.

Fui educado pela Imaginação,

Viajei pela mão dela sempre,

Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,

E todos os dias têm essa janela por diante,

E todas as horas parecem minhas dessa maneira.

Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,

Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,

Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,

Galga, cavalo electron-ion, sistema solar resumido

Por dentro da acção dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.

Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstracta e louca,

Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,

Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,

E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.

Ho-ho-ho-ho-ho!...

Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo

Adiante da própria ideia veloz do corpo projectado,

Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,

He-la-ho-ho... Helahoho...Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexeAs rodas da locomotiva, as rodas do eléctrico, os volantes dos Diesel,E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linhaDe si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...Ho----Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!Ave, salve, viva a grande máquina universo!Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, ideias abstractas,A mesmo seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,Nos meus nervos locomotiva, carro eléctrico, automóvel, debulhadora a vapor,Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel, Campbell,Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a electricidade,Máquina universal movida por correias de todos os momentos!Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.Todas as auroras raiam no mesmo lugar:Infinito...Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,E todos os que se levantam cedo para ir trabalharVão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, nocturna,Rola no espaço abstracto, na noite mal iluminada realmenteRola...Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astrosBate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstracto,Para inencontrável, ali sem restrições nenhumas,A Meta invisível – todos os pontos onde eu não estou – e ao mesmo tempo...Ah, não estar parado nem a andar,Não estar deitado nem de pé,Nem acordado nem a dormir,Nem aqui nem outro ponto qualquer,Resolver a equação desta inquietação prolixa,Saber onde estar para poder estar em toda a parte,Saber onde deitar-me para estar passeando por todos as ruas...Ho-ho-ho-ho-ho-ho-hoCavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas...Hup-la por cima das árvores, hup-la por baixo dos tanques,Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,Numa velocidade crescente, insistente, violenta,Hup-la hup-la hup-la hup-la...Cavalgada panteísta de mim por dentro de todos as coisas,Cavalgada energética por dentro de todas as energias,Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,Clarim claro da manhã ao fundoDo semicírculo frio do horizonte,Ténue clarim longínquo como bandeiras incertasDesfraldadas para além de onde as cores são visíveis...Clarim trémulo, poeira parada, onde a noite cessa,Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade...Carro que chia limpidamente, vapor que apita,Guindaste que começa a girar no meu ouvido,Tosse seca, nova do que sai de casa,Leve arrepio matutino na alegria de viver,Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,Costureira fadada para pior que a manhã que sente,Operário tísico desfeito para feliz nesta horaInevitavelmente vital,Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casasAbrem aqui e ali os olhos cortinados a branco...Toda a madrugada é uma colina que oscila,(...)... e caminha tudoPara a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebrasE rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estrugeVertigem do meio-dia emoldurada a vertigens –Sol dos vértices e nos (...) da minha visão estriada,Do rodopio parado da minha retentiva seca,Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,Aros caixotes trolley loja rua vitrines saia olhosRapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar ruaPasseio lojistas «perdão» ruaRua a passear por mim pela rua por mimTudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de láA velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto ruaO meu passado rua estremece camião rua não me recordo ruaEu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mimRua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez ruaRua pra trás e pra diante debaixo dos meus pésRua em X em Y em Z por dentro dos meus braçosRua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas ruaBebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-tePor todos os precipícios abaixoE choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!À moi, todos os objectos projécteis!À moi, todos os objectos direcções!À moi, todos os objectos invisíveis de velozes!Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,Velocidade entra por todas as ideias dentro,Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesadoOs corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstracto nos ares,Senhor supremo da hora europeia, metálico cio.Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!(...)Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,Declina dentro de mim o sol no alto do céu.Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstracta,Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,Calcar, calcar, calcar até não sentir...Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,Cavalgada voo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.