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A PARTIDA [b]

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A PARTIDA [b]

A PARTIDA


Ave atque vale, ó assombroso universo!

Ave atque vale, de que diversa maneira

É que eu te verei, e será definitivamente,

Se haverá ainda mais vida, mais modos de te conhecer,

Mais lados de onde te olhar, — e talvez nunca te verei do Único —

Seja como for, ave atque vale, ó Mundo!


Partirei para aquele teu aspecto que a Morte deve revelar-me

Com o coração confrangido, a alma ansiosa, o olhar vago,

E toda a consciência da aventura pondo-me ondas no sangue...

Eu partirei para a Morte nada esperando encontrar

Mas disposto a ver coisas prodigiosas do outro lado do Mundo.


Ave atque vale, ó Universo espontâneo!

Verde esmiuçado a ervas nos prados contentes,

Verde escurecido das copas das árvores ao vento,

Escura brancura da água,

Penugem invisível dos brejos

Garras de sombra imaterial dos vendavais,

Grandes extensões (...) dos mares

Curso evidente dos rios

Ave atque vale! Até Deus! Até Mim! Até Vós!


Quando eu abandonar o meu ser como uma cadeira donde me levanto

Deixar atrás o mundo como a um quarto donde saio,

Abandonar toda esta forma, de sentidos e pensamento, de sentir as coisas,

Como uma capa que me prenda,

Quando de vez minha alma chegar à superfície da minha pele

E dispersar o meu ser pelo universo exterior,

Seja com alegria que eu reconheça que a Morte

Vem como um sol distante na antemanhã do meu novo ser.


Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo

Viagem em diagonal às dimensões dos objectos

Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,

Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá

Como um comboio sobre os rails directamente...

(...)

Não tenho medo, ó Morte, ao que não deixa entrever

O teu postigo proibido na tua porta sobre o mundo.


Estendo os braços para ti como uma criança

Do colo da ama para o aparecimento da mãe...

Por ti deixo contente os meus brinquedos de adulto,

Por ti não tenho parentes, não tenho nada que me prenda

A este prodigioso, constante e doentio universo...

Todo o Definitivo deve estar em Ti ou em parte nenhuma.

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.