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A morte — esse pior que tem por força que acontecer;

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A morte — esse pior que tem por força que acontecer;

A morte — esse pior que tem por força que acontecer;

Esse cair para o fundo do poço sem fundo;

Esse escurecer universal para dentro;

Esse apocalipse da consciência , com a queda de todas as estrelas —

Isso que será meu um dia,

Um dia pertíssimo, pertíssimo,

Pinta de negro todas as minhas sensações,

E é areia sem corpo escorrendo-me por entre os dedos

O pensamento e a vida.


A gare no deserto, deserta;

O intérprete mudo;

O boneco humano sem olhos nem boca

Embandeirado a fogo-fátuo

Num mar que é só puro espaço

Sob um céu sacudido por relâmpagos pretos...

Sinistra singre, roída de vermes audíveis a quilha sentiente

E sejam os mastros dedos de âmbar, longuíssimos,

Apontando o vácuo das coisas (que é o abismo em tudo)...

As velas de um reposteiro vermelho lindo e baço

Se abram ao vento soprando de um buraco enorme sem fim,

E comecem, fora do tempo, uma viagem ao fim de tudo.

Estica um horror consciente no gemer dos cabos...

O ruído do ranger da madeira é dentro da alma...

O avanço velocíssimo é uma coisa que falta...

E se a vida é horizontal, isto dá-se verticalmente...

Álvaro de Campos in Poesias de Álvaro de Campos


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Álvaro de Campos

O Poeta Álvaro de Campos é um dos mais importantes heterônimos de Fernando Pessoa. Segundo Fernando Pessoa nasceu em Tavira, no extremo sul de Portugal. Estudou Engenharia Naval, na Escócia. No entanto, não exerceu a profissão por não poder suportar viver confinado em escritórios.