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A lembrada canção,

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A lembrada canção,

A lembrada canção,

Amor, renova agora.

Na noite, olhos fechados, tua voz

Dói-me no coração

Por tudo quanto chora.

Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós.


Não, a voz não é tua

Que se ergue e acorda em mim

Murmúrios de saudade e de inconstância,

O luar não vem da lua

Mas do meu ser afim

Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância.


Não, não é teu o canto

Que como um astro ao fundo

Da noite imensa do meu coração

Chama em vão, chama tanto...

Quem sou não sei... e o mundo?...

Renova, amor, a antiga e vã canção.


Cantas mais que por ti,

Tua voz é uma ponte

Por onde passa, inúmero, um segredo

Que nunca recebi –

Murmúrio do horizonte,

Água na noite, morte que vem cedo.


Assim, cantas sem que existas.

Ao fim do luar pressinto

Melhores sonhos que estes da ilusão


01/01/1920

Fernando Pessoa in Poesias Inéditas


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Fernando Pessoa

Escritor, Poeta e Filósofo Fernando Pessoa deixou-nos inúmeros poemas e reflexões tanto em seu nome como nos de seu heterônimos.