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Ricardo Reis

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Ricardo Reis foi um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa

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Ricardo Reis

Ricardo Reis, um dos diversos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa. Segundo seu criador, ele nasceu em 1887, em Portugal, mas se exilou no Brasil a partir de 1919. Monarquista, epicurista, partidário do estoicismo e do paganismo, sua poesia possui traços neoclássicos e tem como principal temática a efemeridade da vida.

  • No momento em que vamos pelos prados E o nosso amor é um terceiro ali, Que usurpa que saibamos Um ao certo do outro, Nesse momento, em que o que vemos mesmo Sem o v...

  • Deixa passar o vento Sem lhe perguntar nada. Seu sentido é apenas Ser o vento que passa… Consegui que desta hora O sacrifical fumo Subisse até ao Olimpo. E escrevi estes vers...

  • Não batas palmas diante da beleza. Não se sente a beleza demasiado. A beleza não passa É a sombra dos Deuses. Mexa-se embora a nossa estéril vida, Desdobre Éolo sob...

  • Pobres de nós que perdemos quanto Sereno e forte nos dava a vida O único modo O único humano de a ter... Pobres de nós Crianças orfãs que mal se lembram De...

  • Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas. Pouco pode o homem contra a externa vida. Deixa haver a injustiça. Nada muda, que mudes. Não tens mais reino que a doada mente....

  • Se já não torna a eterna primavera Que em sonhos conheci, O que é que o exausto coração espera Do que não tem em si? Se não há mais florir de árvores feitas ...

  • Não morreram, Neera, os velhos deuses. Sempre que a humana alegria Renasce, eles se voltam Para a nossa saudade.

  • Um verso repete Uma brisa fresca, O verão nas ervas, E vazio sofre ao sol O átrio abandonado. Ou, no inverno, ao longe Os cimos de neve, À lareira toadas Dos contos herdad...

  • Em vão procuro o bem que me negaram. As flores dos jardins herdadas de outros Como hão-de mais que perfumar de longe Meu desejo de tê-las?

  • O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo,...

  • Não quero a fama, que comigo a têm Erostrato e o pretor Ser olhado de todos — que se eu fosse Só belo, me olhariam. O fausto repúdio, porque o compram. O amor...

  • Quer com amor, que sem amor, senesces Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.

  • Breve o inverno virá com sua branca Nudez vestir os campos. As lareiras serão as nossas pátrias E os contos que contarmos Assentados ao pé do seu calor Valerã...

  • A folha insciente, antes que a própria morra Para nós morre, Cloé, Para nós, que sabemos que ela morre Assim, Cloé, assim Antes que os próprios corpos, que empregamos ...

  • In Flaccum Cuidas tu, louro Flacco, que cansando Os teus estéreis trabalhosos dias Darás mais sorrisos ao campo E serão mais altos os peitos de Ceres Põe mais vista em no...

  • Diana através dos ramos Espreita a vinda de Endymion Endymion que nunca vem, Endymion, Endymion, Lá longe na floresta… E a sua voz chamando Exclama através dos ramos Endymion, ...

  • Um verso repete Uma brisa fresca, O verão nas ervas, E vazio sofre ao sol O átrio abandonado. Ou, no inverno, ao longe Os cimos de neve, À lareira toadas Dos contos herdad...

  • Olho os campos, Neera Verdes campos, e sinto Como virá um dia Em que não mais os veja. Par de árvores cobre O céu aqui sem nuvens E faz correr mais triste A viva e alegre lin...

  • O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo,...

  • Quer com amor, que sem amor, senesces Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.

  • A folha insciente, antes que a própria morra Para nós morre, Cloé, Para nós, que sabemos que ela morre Assim, Cloé, assim Antes que os próprios corpos, que empregamos ...

  • Diana através dos ramos Espreita a vinda de Endymion Endymion que nunca vem, Endymion, Endymion, Lá longe na floresta… E a sua voz chamando Exclama através dos ramos Endymion, ...

  • Aqui, sem outro Apolo do que Apolo, Sem um suspiro abandonemos Cristo E a febre de buscarmos Um deus dos dualismos. E longe da cristã sensualidade Que a casta calma...

  • Em Ceres anoitece. Nos píncaros ainda Faz luz. Sinto-me tão grande Nesta hora solene E vã Que, assim como há deuses Dos campos, das flores Das se...

  • Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo. Tu não és mais que um deus a mais no eterno Pantéon que preside À nossa vida incerta. Nem maior nem menor que os novos deuses, ...

  • Sofro, Lídia, do medo do destino. Qualquer pequena cousa de onde pode Brotar uma ordem nova em minha vida, Lídia, me aterra. Qualquer cousa, qual seja, que transforme Meu pla...

  • Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas. (Enlaçemos as mãos). Depois pensemos, crianças ...

  • Prefiro rosas, meu amor, à pátria, E antes magnólias amo Que a glória e a virtude. Logo que a vida me não canse, deixo Que a vida por mim passe Logo que eu fique o mesmo. Que importa àque...

  • Quer pouco, terás tudo. Quer nada: serás livre. O mesmo amor que tenham Por nós, quer-nos, oprime-nos.

  • Nunca a alheia vontade, inda que grata, Cumpras por própria. Manda no que fazes, Nem de ti mesmo servo. Niguém te dá quem és. Nada te mude. Teu íntimo destino involuntário Cumpre alto. Sê teu ...

  • Sim, sei bem Que nunca serei alguém. Sei de sobra Que nunca terei uma obra. Sei, enfim, Que nunca saberei de mim. Sim, mas agora, Enquanto dura esta hora, Este luar, estes ramos, Esta paz ...

  • Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive.

  • Eu nunca fui dos que a um sexo o outro No amor ou na amizade preferiram. Por igual a beleza apeteço Seja onde for, beleza. Pousa a ave, olhando apenas a quem pousa Pondo querer pousar antes ...

  • Segue o teu destino, Rega as tuas plantas, Ama as tuas rosas. O resto é a sombra De árvores alheias. A realidade Sempre é mais ou menos Do que nós queremos. Só nós somos sempre Iguais a nó...

  • Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge. Mas finge sem fingimento. Nada speres que em ti já não exista, Cada um consigo é triste. Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas, Sorte se a sorte é d...

  • Antes de nós nos mesmos arvoredos Passou o vento, quando havia vento, E as folhas não falavam De outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. Não fazemos mais ruído no q...

  • Meu gesto que destrói A mole das formigas, Tomá-lo-ão elas por de um ser divino; Mas eu não sou divino para mim. Assim talvez os deuses Para si o não sejam, E só de serem do que nós maiores...

  • O mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Neptuno; E a praia é alva e cheia de pequenos Brilho...

  • Cada um cumpre o destino que lhe cumpre, E deseja o destino que deseja; Nem cumpre o que deseja, Nem deseja o que cumpre. Como as pedras na orla dos canteiros O Fado nos dispõe, e ali ficamo...

  • Vós que, crentes em Cristos e Marias, Turvais da minha fonte as claras águas Só para me dizerdes Que há águas de outra espécie Banhando prados com melhores horas, – Dessas outras r...

  • Aos deuses peço só que me concedam O nada lhes pedir. A dita é um jugo E o ser feliz oprime Porque é um certo estado. Não quieto nem inquieto meu ser calmo Quero erguer alto acima de onde os ...

  • O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo, Que scura a spuma deix...

  • Quero dos deuses só que me não lembrem. Serei livre — sem dita nem desdita, Como o vento que é a vida Do ar que não é nada. O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos, Cada um com seu modo, nos ...

  • Da lâmpada nocturna A chama estremece E o quarto alto ondeia. Os deuses concedem Aos seus calmos crentes Que nunca lhes trema A chama da vida Perturbando o aspecto Do que está em roda, M...

  • Nada fica de nada. Nada somos. Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos Da irrespirável treva que nos pese Da humilde terra imposta, Cadáveres adiados que procriam. Leis feitas, estátuas vista...

  • Aqui, Neera, longe De homens e de cidades, Por ninguém nos tolher O passo, nem vedarem A nossa vista as casas, Podemos crer-nos livres. Bem sei, ó flava, que inda Nos tolhe a vida o corpo,...

  • Como se cada beijo Fora de despedida, Minha Cloe, beijemo-nos, amando. Talvez que já nos toque No ombro a mão, que chama À barca que não vem senão vazia; E que no mesmo feixe Ata o que mútuo...

  • Não quero recordar nem conhecer-me. Somos demais se olhamos em quem somos. Ignorar que vivemos Cumpre bastante a vida. Tanto quanto vivemos, vive a hora Em que vivemos, igualme...

  • Não a Ti, Cristo, odeio ou te não quero. Em ti como nos outros creio deuses mais velhos. Só te tenho por não mais nem menos Do que eles, mas mais novo apenas. Odeio-os sim, e a esses com calm...

  • Não canto a noite porque no meu canto O sol que canto acabará em noite. Não ignoro o que esqueço. Canto por esquecê-lo. Pudesse eu suspender, inda que em sonho, O Apolíneo curs...

  • Vossa formosa juventude leda, Vossa felicidade pensativa, Vosso modo de olhar a quem vos olha, Vosso não conhecer-vos – Tudo quanto vós sois, que vos semelha À vida universal que vos es...

  • Não quero as oferendas Com que fingis, sinceros, Dar-me os dons que me dais. Dais-me o que perderei, Chorando-o, duas vezes, Por vosso e meu, perdido. Antes mo prometais Sem mo dardes, que...

  • Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico, Nem temo o influxo inúmero futuro Dos tempos e do olvido; Que a mente, quando, fixa, em si contempla Os reflexos ...

  • Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva 'spuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o ...

  • Sofro, Lídia, do medo do destino. A leve pedra que um momento ergue As lisas rodas do meu carro, aterra Meu coração. Tudo quanto me ameace de mudar-me Para melhor que seja, odeio ...

  • Feliz aquele a quem a vida grata Concedeu que dos deuses se lembrasse E visse como eles Estas terrenas coisas onde mora Um reflexo mortal da imortal vida. Feliz, que quando a hora tributár...

  • Felizes, cujos corpos sob as árvores Jazem na húmida terra, Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem Das doenças da lua. Verta Éolo a caverna inteira sobre O orbe esfarrapado, L...

  • Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra, Quando a invasão ardia na Cidade E as mulheres gritavam, Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo contínu...

  • Bocas roxas de vinho Testas brancas sob rosas, Nus, brancos antebraços Deixados sobre a mesa: Tal seja, Lídia, o quadro Em que fiquemos, mudos, Eternamente inscritos Na consciência dos deu...

  • Tirem-me os deuses Em seu arbítrio Superior e urdido às escondidas O Amor, glória e riqueza. Tirem, mas deixem-me, Deixem-me apenas A consciência lúcida e solene Das coisas e dos seres. ...

  • Anjos ou deuses, sempre nós tivemos A visão perturbada de que acima De nós e compelindo-nos Agem outras presenças. Como acima dos gados que há nos campos O nosso esforço, que eles ...

  • Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses, Não pertence à ciên...

  • Antes de nós nos mesmos arvoredos Passou o vento, quando havia vento, E as folhas não falavam De outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. Não fazemos mais ruído no q...

  • O mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Neptuno; E a praia é alva e cheia de pequenos Brilho...

  • Vós que, crentes em Cristos e Marias, Turvais da minha fonte as claras águas Só para me dizerdes Que há águas de outra espécie Banhando prados com melhores horas, – Dessas outras r...

  • O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo, Que scura a spuma deix...

  • Flores que colho, ou deixo, Vosso destino é o mesmo. Via que sigo, chegas Não sei aonde eu chego. Nada somos que valha, Somo-lo mais que em vão. 02/09/1923

  • Dia após dia a mesma vida é a mesma. O que decorre, Lídia, No que nós somos como em que não somos Igualmente decorre. Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. ...

  • A abelha que, voando, freme sobre A colorida flor, e pousa, quase Sem diferença dela À vista que não olha, Não mudou desde Cecrops. Só quem vive Uma vida com ser que se conhece ...

  • Não quero recordar nem conhecer-me. Somos demais se olhamos em quem somos. Ignorar que vivemos Cumpre bastante a vida. Tanto quanto vivemos, vive a hora Em que vivemos, igualme...

  • Não canto a noite porque no meu canto O sol que canto acabará em noite. Não ignoro o que esqueço. Canto por esquecê-lo. Pudesse eu suspender, inda que em sonho, O Apolíneo curs...

  • Vossa formosa juventude leda, Vossa felicidade pensativa, Vosso modo de olhar a quem vos olha, Vosso não conhecer-vos – Tudo quanto vós sois, que vos semelha À vida universal que vos es...

  • Não quero as oferendas Com que fingis, sinceros, Dar-me os dons que me dais. Dais-me o que perderei, Chorando-o, duas vezes, Por vosso e meu, perdido. Antes mo prometais Sem mo dardes, que...

  • Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico, Nem temo o influxo inúmero futuro Dos tempos e do olvido; Que a mente, quando, fixa, em si contempla Os reflexos ...

  • Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva 'spuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o ...

  • Sofro, Lídia, do medo do destino. A leve pedra que um momento ergue As lisas rodas do meu carro, aterra Meu coração. Tudo quanto me ameace de mudar-me Para melhor que seja, odeio ...

  • Feliz aquele a quem a vida grata Concedeu que dos deuses se lembrasse E visse como eles Estas terrenas coisas onde mora Um reflexo mortal da imortal vida. Feliz, que quando a hora tributár...

  • Felizes, cujos corpos sob as árvores Jazem na húmida terra, Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem Das doenças da lua. Verta Éolo a caverna inteira sobre O orbe esfarrapado, L...

  • Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra, Quando a invasão ardia na Cidade E as mulheres gritavam, Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo contínu...

  • Bocas roxas de vinho Testas brancas sob rosas, Nus, brancos antebraços Deixados sobre a mesa: Tal seja, Lídia, o quadro Em que fiquemos, mudos, Eternamente inscritos Na consciência dos deu...

  • Tirem-me os deuses Em seu arbítrio Superior e urdido às escondidas O Amor, glória e riqueza. Tirem, mas deixem-me, Deixem-me apenas A consciência lúcida e solene Das coisas e dos seres. ...

  • Anjos ou deuses, sempre nós tivemos A visão perturbada de que acima De nós e compelindo-nos Agem outras presenças. Como acima dos gados que há nos campos O nosso esforço, que eles ...

  • Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses, Não pertence à ciên...

  • Antes de nós nos mesmos arvoredos Passou o vento, quando havia vento, E as folhas não falavam De outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. Não fazemos mais ruído no q...

  • O mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Neptuno; E a praia é alva e cheia de pequenos Brilho...

  • Vós que, crentes em Cristos e Marias, Turvais da minha fonte as claras águas Só para me dizerdes Que há águas de outra espécie Banhando prados com melhores horas, – Dessas outras r...

  • Flores que colho, ou deixo, Vosso destino é o mesmo. Via que sigo, chegas Não sei aonde eu chego. Nada somos que valha, Somo-lo mais que em vão. 02/09/1923

  • Dia após dia a mesma vida é a mesma. O que decorre, Lídia, No que nós somos como em que não somos Igualmente decorre. Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. ...

  • A abelha que, voando, freme sobre A colorida flor, e pousa, quase Sem diferença dela À vista que não olha, Não mudou desde Cecrops. Só quem vive Uma vida com ser que se conhece ...

  • Não quero recordar nem conhecer-me. Somos demais se olhamos em quem somos. Ignorar que vivemos Cumpre bastante a vida. Tanto quanto vivemos, vive a hora Em que vivemos, igualme...

  • Não canto a noite porque no meu canto O sol que canto acabará em noite. Não ignoro o que esqueço. Canto por esquecê-lo. Pudesse eu suspender, inda que em sonho, O Apolíneo curs...

  • Vossa formosa juventude leda, Vossa felicidade pensativa, Vosso modo de olhar a quem vos olha, Vosso não conhecer-vos – Tudo quanto vós sois, que vos semelha À vida universal que vos es...

  • Não quero as oferendas Com que fingis, sinceros, Dar-me os dons que me dais. Dais-me o que perderei, Chorando-o, duas vezes, Por vosso e meu, perdido. Antes mo prometais Sem mo dardes, que...

  • Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico, Nem temo o influxo inúmero futuro Dos tempos e do olvido; Que a mente, quando, fixa, em si contempla Os reflexos ...

  • Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva 'spuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o ...

  • Sofro, Lídia, do medo do destino. A leve pedra que um momento ergue As lisas rodas do meu carro, aterra Meu coração. Tudo quanto me ameace de mudar-me Para melhor que seja, odeio ...

  • Feliz aquele a quem a vida grata Concedeu que dos deuses se lembrasse E visse como eles Estas terrenas coisas onde mora Um reflexo mortal da imortal vida. Feliz, que quando a hora tributár...

  • Felizes, cujos corpos sob as árvores Jazem na húmida terra, Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem Das doenças da lua. Verta Éolo a caverna inteira sobre O orbe esfarrapado, L...

  • Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra, Quando a invasão ardia na Cidade E as mulheres gritavam, Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo contínu...

  • Bocas roxas de vinho Testas brancas sob rosas, Nus, brancos antebraços Deixados sobre a mesa: Tal seja, Lídia, o quadro Em que fiquemos, mudos, Eternamente inscritos Na consciência dos deu...

  • Tirem-me os deuses Em seu arbítrio Superior e urdido às escondidas O Amor, glória e riqueza. Tirem, mas deixem-me, Deixem-me apenas A consciência lúcida e solene Das coisas e dos seres. ...

  • Anjos ou deuses, sempre nós tivemos A visão perturbada de que acima De nós e compelindo-nos Agem outras presenças. Como acima dos gados que há nos campos O nosso esforço, que eles ...

  • Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses, Não pertence à ciên...

  • Antes de nós nos mesmos arvoredos Passou o vento, quando havia vento, E as folhas não falavam De outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. Não fazemos mais ruído no q...

  • O mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Neptuno; E a praia é alva e cheia de pequenos Brilho...

  • Vós que, crentes em Cristos e Marias, Turvais da minha fonte as claras águas Só para me dizerdes Que há águas de outra espécie Banhando prados com melhores horas, – Dessas outras r...

  • Flores que colho, ou deixo, Vosso destino é o mesmo. Via que sigo, chegas Não sei aonde eu chego. Nada somos que valha, Somo-lo mais que em vão. 02/09/1923

  • Dia após dia a mesma vida é a mesma. O que decorre, Lídia, No que nós somos como em que não somos Igualmente decorre. Colhido, o fruto deperece; e cai Nunca sendo colhido. ...

  • A abelha que, voando, freme sobre A colorida flor, e pousa, quase Sem diferença dela À vista que não olha, Não mudou desde Cecrops. Só quem vive Uma vida com ser que se conhece ...

  • Não quero recordar nem conhecer-me. Somos demais se olhamos em quem somos. Ignorar que vivemos Cumpre bastante a vida. Tanto quanto vivemos, vive a hora Em que vivemos, igualme...

  • Não canto a noite porque no meu canto O sol que canto acabará em noite. Não ignoro o que esqueço. Canto por esquecê-lo. Pudesse eu suspender, inda que em sonho, O Apolíneo curs...

  • Vossa formosa juventude leda, Vossa felicidade pensativa, Vosso modo de olhar a quem vos olha, Vosso não conhecer-vos – Tudo quanto vós sois, que vos semelha À vida universal que vos es...

  • Não quero as oferendas Com que fingis, sinceros, Dar-me os dons que me dais. Dais-me o que perderei, Chorando-o, duas vezes, Por vosso e meu, perdido. Antes mo prometais Sem mo dardes, que...

  • Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico, Nem temo o influxo inúmero futuro Dos tempos e do olvido; Que a mente, quando, fixa, em si contempla Os reflexos ...

  • Uma após uma as ondas apressadas Enrolam o seu verde movimento E chiam a alva 'spuma No moreno das praias. Uma após uma as nuvens vagarosas Rasgam o seu redondo movimento E o ...

  • Sofro, Lídia, do medo do destino. A leve pedra que um momento ergue As lisas rodas do meu carro, aterra Meu coração. Tudo quanto me ameace de mudar-me Para melhor que seja, odeio ...

  • Feliz aquele a quem a vida grata Concedeu que dos deuses se lembrasse E visse como eles Estas terrenas coisas onde mora Um reflexo mortal da imortal vida. Feliz, que quando a hora tributár...

  • Felizes, cujos corpos sob as árvores Jazem na húmida terra, Que nunca mais sofrem o sol, ou sabem Das doenças da lua. Verta Éolo a caverna inteira sobre O orbe esfarrapado, L...

  • Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia Tinha não sei qual guerra, Quando a invasão ardia na Cidade E as mulheres gritavam, Dois jogadores de xadrez jogavam O seu jogo contínu...

  • Bocas roxas de vinho Testas brancas sob rosas, Nus, brancos antebraços Deixados sobre a mesa: Tal seja, Lídia, o quadro Em que fiquemos, mudos, Eternamente inscritos Na consciência dos deu...

  • Tirem-me os deuses Em seu arbítrio Superior e urdido às escondidas O Amor, glória e riqueza. Tirem, mas deixem-me, Deixem-me apenas A consciência lúcida e solene Das coisas e dos seres. ...

  • Anjos ou deuses, sempre nós tivemos A visão perturbada de que acima De nós e compelindo-nos Agem outras presenças. Como acima dos gados que há nos campos O nosso esforço, que eles ...

  • Acima da verdade estão os deuses. A nossa ciência é uma falhada cópia Da certeza com que eles Sabem que há o Universo. Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses, Não pertence à ciên...

  • Antes de nós nos mesmos arvoredos Passou o vento, quando havia vento, E as folhas não falavam De outro modo do que hoje. Passamos e agitamo-nos debalde. Não fazemos mais ruído no q...

  • O mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Neptuno; E a praia é alva e cheia de pequenos Brilho...

  • Vós que, crentes em Cristos e Marias, Turvais da minha fonte as claras águas Só para me dizerdes Que há águas de outra espécie Banhando prados com melhores horas, – Dessas outras r...

  • Se a cada coisa que há um deus compete, Porque não haverá de mim um deus? Porque o não serei eu? É em mim que o Deus anima Porque eu sinto. O mundo externo claramente vejo – Coisas,...

  • Quanto faças, supremamente faz. Mais vale, se a memória é quanto temos, Lembrar muito que pouco. E se o muito no pouco te é possível, Mais ampla liberdade de lembrança Te tornará teu...

  • Rasteja mole pelos campos ermos O vento sossegado. Mais parece tremer de um tremor próprio, Que do vento, o que é erva. E se as nuvens no céu, brancas e altas, Se movem, mais pa...

  • Azuis os montes que estão longe param. De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa, Ou verde ou amarelo ou variegado, Ondula incertamente. Débil como uma haste de papoila Me suporta o m...

  • Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde quer que estejamos. Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros Onde quer que moremos. Tudo é alheio Nem fala língua nossa. Façamos de nós mesmos...

  • Severo narro. Quanto sinto, penso. Palavras são ideias. Múrmuro, o rio passa, e o que não passa, Que é nosso, não do rio. Assim quisesse o verso: meu e alheio E por mim mesmo li...

  • Sereno aguarda o fim que pouco tarda. Que é qualquer vida? Breves sóis e sono. Quanto pensas emprega Em não muito pensares. Ao nauta o mar obscuro é a rota clara. Tu, na co...

  • Ninguém a outro ama, senão que ama O que de si há nele, ou é suposto. Nada te pese que não te amem. Sentem-te Quem és, e és estrangeiro. Cura de ser quem és, amam-te ou nunca. Firme cont...

  • Vive sem horas. Quanto mede pesa, E quanto pensas mede. Num fluido incerto nexo, como o rio Cujas ondas são ele, Assim teus dias vê, e se te vires Passar, como a outrem, ca...

  • Quero ignorado, e calmo Por ignorado, e próprio Por calmo, encher meus dias De não querer mais deles. Aos que a riqueza toca O ouro irrita a pele. Aos que a fama bafeja Embacia-se a vida. ...

  • Cada dia sem gozo não foi teu (Dia em que não gozaste não foi teu): Foi só durares nele. Quanto vivas Sem que o gozes, não vives. Não pesa que amas, bebas ou sorrias: Basta o reflexo do sol ...

  • Pois que nada que dure, ou que, durando, Valha, neste confuso mundo obramos, E o mesmo útil para nós perdemos Connosco, cedo, cedo, O prazer do momento anteponhamos À absurda cura do fu...

  • Aqui, neste misérrimo desterro Onde nem desterrado estou, habito, Fiel, sem que queira, àquele antigo erro Pelo qual sou proscrito. O erro de querer ser igual a alguém Feliz, em suma – qu...

  • Uns, com os olhos postos no passado, Vêem o que não vêem; outros, fitos Os mesmos olhos no futuro, vêem O que não pode ver-se. Porque tão longe ir pôr o que está perto – A segurança nos...

  • Súbdito inútil de astros dominantes, Passageiros como eu, vivo uma vida Que não quero nem amo, Minha porque sou ela, No ergástulo de ser quem sou, contudo, De em mim pensar me livro, ol...

  • Aguardo, equânime, o que não conheço – Meu futuro e o de tudo. No fim tudo será silêncio, salvo Onde o mar banhar nada. 13/12/1933

  • Vivem em nós inúmeros, Se penso ou sinto, ignoro Quem é que pensa ou sente. Sou somente o lugar Onde se sente ou pensa. Tenho mais almas que uma. Há mais eus do que eu mesmo. Existo todav...

  • Ponho na altiva mente o fixo esforço Da altura, e à sorte deixo, E as suas leis, o verso; Que, quando é alto e grégio o pensamento, Súbdita a frase o busca E o ...

  • Temo, Lídia, o destino. Nada é certo. Em qualquer hora pode suceder-nos O que nos tudo mude. Fora do conhecido é estranho o passo Que próprio damos. Graves numes guardam As linda...

  • Não queiras, Lídia, edificar no espaço Que figuras futuro, ou prometer-te Amanhã. Cumpre-te hoje, não esperando. Tu mesma és tua vida. Não te destines, que não és futura. Quem sabe se,...

  • Saudoso já deste Verão que vejo, Lágrimas para as flores dele emprego Na lembrança invertida De quando hei-de perdê-las. Transpostos os portais irreparáveis De cada ano, me antecip...

  • Deixemos, Lídia, a ciência que não põe Mais flores do que Flora pelos campos, Nem dá de Apolo ao carro Outro curso que Apolo. Contemplação estéril e longínqua Das coisas próxim...

  • É tão suave a fuga deste dia, Lídia, que não parece que vivemos. Sem dúvida que os deuses Nos são gratos esta hora, Em paga nobre desta fé que temos Na exilada verdade dos seus...

  • Para os deuses as coisas são mais coisas. Não mais longe eles vêem, mas mais claro Na certa Natureza E a contornada vida... Não no vago que mal vêem Orla misteriosamente os seres...

  • No magno dia até os sons são claros. Pelo repouso do amplo campo tardam. Múrmura, a brisa cala. Quisera, como os sons, viver das coisas Mas não ser delas, consequência alada ...

  • Sob a leve tutela De deuses descuidosos, Quero gastar as concedidas horas Desta fadada vida. Nada podendo contra O ser que me fizeram, Desejo ao menos que me haja o Fado Da...

  • Antes de ti era a Mãe Terra scrava Das trevas súperas que da alma nascem E caem sobre o mundo Porque atrás o sol brilha. A realidade ao mundo devolveste Que haviam os cristãos fech...

  • Os deuses desterrados, Os irmãos de Saturno, Às vezes, no crepúsculo Vêm espreitar a vida. Vêm então ter connosco Remorsos e saudades E sentimentos falsos. É a Presença deles, Deuses que ...

  • Ouço, como se o cheiro De flores me acordasse... É música – um canteiro De influência e disfarce. Impalpável lembrança, Sorriso de ninguém, Com aquela esperança Que nem esperança tem... ...

  • Os deuses são felizes. Vivem a vida calma das raízes. Seus desejos o Fado não oprime, Ou, oprimindo, redime Com a vida imortal. Não há Sombras ou outros que os contristem. E, além disto, não...

  • A mão invisível do vento roça por cima das ervas. Quando se solta, saltam nos intervalos do verde Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos, E outras pequenas flores azuis que se não vêem log...

  • Tornar-te-ás só quem tu sempre foste. O que te os deuses dão, dão no começo. De uma só vez o Fado Te dá o fado, que é um. A pouco chega pois o esforço posto Na medida da tua força nata – A ...

  • Sê o dono de ti Sem fechares os olhos. Na dura mão aperta Com um tacto encavado O mundo exterior Contra a palma sentindo Outra cousa que a palma.

  • Coroai-me de rosas, Coroai-me em verdade De rosas — Rosas que se apagam Em fronte a apagar-se Tão cedo! Coroai-me de rosas E de folhas breves. E basta.

  • Cuidas tu, louco Flaco, que apertando Os teus estéreis, trabalhosos dias Em feixes de hirta lenha, Cumpres a tua vida? A tua lenha é só peso que levas Para onde não tens fogo q...

  • Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico. Aquele agudo interno movimento Por quem os fiz pensados Passa, e eu, outro já que o factor deles, Póstumo subs...

  • Não sem lei, mas segundo leis diversas Entre os homens reparte o fado e os deuses Sem justiça ou injustiça Prazeres, dores, gozos e perigos. Bem ou mal, não terás o que mereces. Quer...

  • Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico. O criador interno movimento Por quem fui autor deles Passa, e eu sobrevivo, já não quem Escreveu o que fez. Cheg...

  • Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre E nós com ele, nada o árbitro escravo Pode contra o destino Nem contra os deuses o mortal desejo Hoje, quais servos com ausentes deuses, Na alh...

  • Ad juvenem rosam offerentem A flor que és, não a que dás, eu quero. Porque me negas o que te não peço? Tão curto tempo é a mais longa vida, E a juventude nela! Flor vives, vã; porq...

  • Não pra mim mas pra ti teço as grinaldas Que de hera e rosas eu na fronte ponho. Para mim tece as tuas Que as minhas eu não vejo. Um para o outro, mancebo, realizemos A beleza improfícua mas...

  • Seguro assento na coluna firme Dos versos em que fico. O criador interno movimento Por quem fui autor deles Passa, e eu sobrevivo, já não quem Escreveu o que fez. Cheg...

  • Sob estas árvores ou aquelas árvores Conduzi a dança, Conduzi a dança, ninfas singelas Até ao amplo gozo Que tomais da vida. Conduzi a dança E sê quase humanas Com o v...

  • Ad juvenem rosam offerentem A flor que és, não a que dás, eu quero. Porque me negas o que te não peço? Tão curto tempo é a mais longa vida, E a juventude nela! Flor vives, vã; porq...

  • Este, seu escasso campo ora lavrando, Ora, solene, olhando-o com a vista De quem a um filho olha, goza incerto A não-pensada vida. Das fingidas fronteiras a mudança O arado lhe não tol...

  • Não queiras, Lídia, edificar no espaço Que figuras futuro, ou prometer-te Esta ou aquela vida. Tu própria és tua vida. Não te destines. Tu não és futura. Cumpre hoje, e a gesta...

  • Olho os campos, Neera, Verdes campos, e penso Em que virá um dia Em que não mais os olhe. Isto se o meditar, Me toldará os céus E fará menos verdes Os verdes campos reais. Ah! Neera, o ...

  • Não tenhas nada nas mãos Salvo uma memória na alma Que quando te puserem Nas mãos o óbolo último Nada terás deixado. Tu serás só tu próprio Não poderão roubar-te O que nunca tiveste. ...

  • Quando Neptuno houver alongado Até quase aos bosques ao cimo da praia Os seus braços com mãos ruidosas de espuma E Éolo houver Largado por sobre o mar sob o azul Onde Apolo aqu...

  • Quero, Neera, que os teus lábios laves Na nascente tranquila Para que contra a tua febre e a triste Dor que pões em viver, Sintas a fresca e calma natureza Da água, e r...

  • O mar jaz; gemem em segredo os ventos Em Éolo cativos; Só com as pontas do tridente as vastas Águas franze Neptuno; E a praia é alva e cheia de pequenos ...

  • Os deuses desterrados Os irmãos de Saturno Às vezes no crepúsculo Vêm espreitar a vida… Vêm então ter connosco Remorsos e saudades... É a presença deles, Deuses que o destroná-los Tornou ...

  • Me concedam os deuses lá do alto Da sua calma que não custa ou serve Ter uma vida tal qual eles Se fossem homens a teriam... Dominando desejos e esperanças Não para ser comprad...

  • Coroai-me de rosas. Coroai-me em verdade De rosas. Quero ter a hora Nas mãos pagãmente E leve, Mal sentir a vida, Mal sentir o sol Sob ramos. Coroai-me de rosas...

  • A. Caeiro Jovem morreste, porque regressaste, Ó deus inconsciente, onde teus pares De após Cronos te esperam Ressuscitados deles. Antes de ti já era a Natureza, Mas...

  • Doce é o fruto à vista, e à boca amaro, Breve é a vida ao tempo e longa à alma. A arte, com que todos, — Ora sem saber virando os copos, Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos, ...

  • Quero, da vida, só não conhecê-la. Bastam, a quem o Fado pôs na vida, As formas sucessórias Da vida insubsistente. Pouco serve pensar que são eternos Os nossos nadas com que na...

  • Há uma cor que me persegue e que eu odeio, Há uma cor que se insinua no meu medo. Porque é que as cores têm força De persistir na nossa alma, Como fantasmas? Há...

  • Nada me dizem vossos deuses mortos Que eu haja de aprender. O Crucifixo Sem amor e sem ódio Do meu (...) afasto. Que tenho eu com as crenças que o Cristo Curvado o torso a mi...

  • Uma cor me persegue na lembrança, E, qual se fora um ente, me submete À sua permanência. Quanto pode um pedaço sobreposto Pela luz à matéria escura encher-me De tédio ao amplo ...

  • Quero, da vida, só não conhecê-la. Bastam, a quem o Fado pôs na vida, As formas sucessórias Da vida insubsistente. Pouco serve pensar que são eternos Os nossos nadas com que na...

  • No grande espaço de não haver nada Que a noite finge, brilham mal os astros. Não há lua, e ainda bem. Neste momento, Lídia, considero Tudo, e um frio que não há me entra Na alm...

  • Nada me dizem vossos deuses mortos Que eu haja de aprender. O Crucifixo Sem amor e sem ódio Do meu (...) afasto. Que tenho eu com as crenças que o Cristo Curvado o torso a mi...

  • Outros com liras ou com harpas narram, Eu com meu pensamento. Que, por meio de música, acham nada Se acham só o que sentem. Mais pesam as palavras que, medidas, Dizem qu...

  • Se em verdade não sabes (nem sustentas Que sabes) que há na vida mais que a vida, Porque com tanto esforço e cura tanta, Operoso a não vives? Porque, sem paraíso que apeteças, Amonto...

  • Quatro vezes mudou a estação falsa No falso ano, no imutável curso Do tempo consequente; Ao verde segue o seco, e ao seco o verde; E não sabe ninguém qual é o primeiro, Nem o ú...

  • Nada fica de nada. Nada somos. Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos Da irrespirável treva que nos pese Da húmida terra imposta, Cadáveres adiados que procriam. Leis feitas, e...

  • Se hás-de ser o que choras Ter que ser, não o chores. Se toda a mole imensa Do mundo ser-te-á noite, Aproveita este breve Dia, e sem choro ou cura Goza-o, contente por viveres O pouco que te...

  • Que mais que um ludo ou jogo é a extensa vida, Em que nos distraímos de outra coisa — Que coisa, não sabemos —; Livres porque brincamos se jogamos, Presos porque tem regras todo jogo; ...

  • Dois é o prazer: gozar e o gozá-lo. Ao néscio elege o parvo, o sábio ao outro. E o igual fado é diverso. Na taça que ergo, ondeio, e vejo, as bolhas Incluo no que sinto, e ao beber ...

  • Grinalda ou coroa É só peso posto Na fronte antes limpa. Grinalda de rosas, Coroa de louros, A fronte transtornam. Que o vento nos possa Mexer nos cabelos, Refrescar a fronte! Que a ...

  • Concentra-te, e serás sereno e forte; Mas concentra-te fora de ti mesmo. Não sê mais para ti que o pedestal No qual ergas a estátua do teu ser. Tudo mais empobrece, porque é pobre.

  • Amo o que vejo porque deixarei Qualquer dia de o ver. Amo-o também porque é. No plácido intervalo em que me sinto, Do amar, mais que ser, Amo o haver tudo e a...

  • O anel dado ao mendigo é injúria, e a sorte Dada a quem pensa é infâmia, que quem pensa — Quer verdade, e não sorte. Como um mendigo a quem é dado o nome De rei, não come dele, mas do...

  • Cada momento que a um prazer não voto Perco, nem curo se o prazer me é dado; Porque o sonho de um gozo No gozo não é sonho.

  • Tarda o verão. No campo tributário Da nossa esperança, não há sol bastante, Nem se esperavam as que vêm, chuvas Na estação, deslocadas. Meu vão conhecimento do que vejo Com o que é fal...

  • Cada um é um mundo; e como em cada fonte Uma deidade vela, em cada homem Porque não há de haver Um deus só de ele homem? Na encoberta sucessão das cousas, Só o sábio sente, q...

  • Sê lanterna, sê luz com vidro em torno, Porém o calor guarda. Não poderão os ventos opressivos Apagar tua luz; Nem teu calor, disperso, irá ser frio No inútil infinito.

  • Cantos, risos e flores alumiem Nosso mortal destino, Para o ermo ocultar fundo, nocturno De nosso pensamento, Curvado, já em vida, sob a ideia Do plutónico gozo, Cônsc...

  • Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo; E ver é ser alheio. Meu passado Só por visão relembro. Aquilo mesmo que senti me é claro. Alheia é a alma antiga; o que me sinto Ch...

  • Tarda o verão. No campo tributário Da nossa esperança, não há sol bastante, Nem se esperavam as que vêm, chuvas Na estação, deslocadas. Meu vão conhecimento do que vejo Com o que é fal...

  • Vem Orpheu, uma sombra Que traz nas mãos um vago filho — a lira.

  • Sê lanterna, sê luz com vidro em torno, Porém o calor guarda. Não poderão os ventos opressivos Apagar tua luz; Nem teu calor, disperso, irá ser frio No inútil infinito.

  • Com que vida encherei os poucos breves Dias que me são dados? Será minha A minha vida ou dada A outros ou a sombras? À sombra de nós mesmos quantos homens Inconscientes nos sac...

  • Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo; E ver é ser alheio. Meu passado Só por visão relembro. Aquilo mesmo que senti me é claro. Alheia é a alma antiga; o que me sinto Ch...

  • Não torna ao ramo a folha que o deixou, Nem com seu mesmo pó se uma outra forma. O momento, que acaba ao começar Este, morreu p'ra sempre. Não me promete o incerto e vão futuro Mais d...

  • Débil no vício, débil na virtude A humanidade débil, nem na fúria Conhece mais que a norma. Pares e diferentes nos regemos Por uma norma própria, e inda que dura, Será à libe...

  • Nem vã esperança vem, não anos vão, Desesperança, Lídia, nos governa A consumanda vida. Só espera ou desespera quem conhece Que há que esperar. Nós, no labento curso Do ser, só...

  • Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte Te mudarão em outro. Para quê pois em seres te empenhares O que não serás tu? Teu é o que és, teu o que tens, de quem Foto do poeta Ricardo Reis

  • O relógio de sol partido marca Do mesmo modo que o inteiro o lapso Da mesma hora perdida… O mesmo gozo com que esqueço, ou o creio, A vida, finda, me a mim mesmo mostra Mais fa...

  • Flores amo, não busco. Se aparecem Me agrado ledo, que há em buscar prazeres O desprazer da busca. A vida seja como o sol, que é dado, Nem arranquemos flores, que, arrancadas N...

  • Enquanto eu vir o sol luzir nas folhas E sentir toda a brisa nos cabelos Não quererei mais nada. Que me pode o Destino conceder Melhor que o lapso sensual da vida Entre ignorân...

  • Para quê complicar inutilmente, Pensando, o que impensado existe? Nascem Ervas sem razão dada — Para elas olhos, não razões, tenhamos. Como através de um rio as contemplemos.

  • Quantos gozam o gozo de gozar Sem que gozem o gozo, e o dividem Entre eles e o verem Os outros que eles gozam. Ah, Lídia, os trajos do gozar omite, Que o gozo é um, se é nosso,...

  • Qual, Pirro, aquilo gosta que o amarga, Qual aquilo que gosta. Pares quem os fados diferentes Como rios diversos, Com curso a leste ou oeste, a sul ou norte, Sempre ao ...

  • Floresce em ti, ó magna terra, em cores A vária primavera, e o verão vasto, E os campos são de alegres. Mas dorme em cada campo o outono dele O inverno cresce com as folhas verdes ...

  • Quis que comigo vísseis A sombra essencial, o abstracto fruto Do inúmero universo. Mas, não fostes Mais que uma luz extinta em noite densa Um pampal sem fruto. (...) — Que é...

  • Toda visão da crença se acompanha, Toda crença da acção; e a acção se perde, Água em água entre tudo. Conhece-te, se podes. Se não podes Conhece que não podes. Saber sabe. Sê t...

  • Sob o jugo essencial e (...) De Saturno, e de Júpiter seu filho, Não vale que com Marte Me aborreçam os momentos. Calmo, solenemente passageiro, Dado às cousas e à minha vida p...

  • Pese a sentença igual da ignota morte Em cada breve corpo, é entrudo e riem, Felizes, porque em eles pensa e sente A vida, que não eles. De rosas, inda que de falsas, teçam Capelas v...

  • Quis que comigo vísseis A sombra essencial, o abstracto fruto Do inúmero universo. Mas, não fostes Mais que uma luz extinta em noite densa Um pampal sem fruto. (...) — Que é...

  • Àquele que, constante, nada espera Não pode negar Jove; nem para ele Murcham as frágeis flores Que nunca esperou ver. Consiste a força do ânimo em não tê-la Para os alacres fi...

  • Sob o jugo essencial e (...) De Saturno, e de Júpiter seu filho, Não vale que com Marte Me aborreçam os momentos. Calmo, solenemente passageiro, Dado às cousas e à minha vida p...

  • Amanhã estas letras em que te amo. Serão vistas, tu morta. Corpo, eras vida para que o não foras, Tão bela! Versos restam. Quem o (...)

  • Crer é errar. Não crer de nada serve.

  • Enquanto ao longe os bardos perturbarem Com a dos seus combates longa lista A parca e humilde chama De cada flébil vida, E nem um palmo mais sequer conquistam De riqueza ou d...

  • Nem relógio parado, nem a falta Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia Tiram o tempo ao tempo.

  • Fazer parar o giro sobre si Do vácuo pensamento, pôr a roda Em movimento sobre a terra escura Poção que por magia de bebê-la A dormente vontade em mim disperte De viver… (...)

  • Pequeno é o espaço que de nós separa O que havemos de ser quando morrermos. Não conhecemos quem será o morto De hoje que então acaba. Só o passado, comum a nós e a ele, Será indício de...

  • Manhã que raias sem olhar a mim, Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te, É para mim que sois Reais e verdadeiros; Porque é na oposição ao que eu desejo Que sinto real a na...

  • A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora Passa segundo nossa estéril, tímida maneira. Ah não haver terraços sobre o impossível.

  • Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno. É sempre prematuro, inda que o espere Nosso hábito, o esfriar Do desejo que houve. Não entardece que não morra o dia. Não nasce amor...

  • Quero versos que sejam como jóias Para que durem no porvir extenso E os não macule a morte Que em cada cousa a espreita, Versos onde se esquece o duro e triste Lapso curto dos ...

  • Maior é quem a passo e passo avança Na sua consciência do Universo E palmo a palmo ganha O domínio dos deuses. Porque quanto mais certas vê as cousas Mais por seu par os deuses...

  • E quanto sei do Universo é que ele Está fora de mim.

  • No momento em que vamos pelos prados E o nosso amor é um terceiro ali, Que usurpa que saibamos Um ao certo do outro, Nesse momento, em que o que vemos mesmo Sem o vermos na p...

  • Pequena vida consciente, sempre Da repetida imagem perseguida Do fim inevitável, a cada hora Sentindo-se mudada, E, como Orfeu volvendo à vinda esposa O olhar algoz, para o passado erg...

  • Não batas palmas diante da beleza. Não se sente a beleza demasiado. A beleza não passa É a sombra dos Deuses. Mexa-se embora a nossa estéril vida, Desdobre Éolo sobre nós seu...

  • Nem destino sem esperança Somos cegos, que vêem só quem tocam.

  • Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas. Pouco pode o homem contra a externa vida. Deixa haver a injustiça. Nada muda, que mudes. Não tens mais reino que a doada mente. Essa, ...

  • Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno. É sempre prematuro, inda que o espere Nosso hábito, o esfriar Do desejo que houve. Não entardece que não morra o dia. Não nasce amor...

  • Hora a hora não dura a face antiga Dos repetidos seres, e hora a hora, Pensando, envelhecemos. Tudo passa ignorado, e o que, sabido, Fica só sabe que ignora, porém nada Torna, ...

  • Maior é quem a passo e passo avança Na sua consciência do Universo E palmo a palmo ganha O domínio dos deuses. Porque quanto mais certas vê as cousas Mais por seu par os deuses...

  • Não torna atrás a negregada prole Regular de Saturno, Nem magnos deuses implorados volvem Quem foi à luz que vemos. Moramos, hóspedes na vida, e usamos Um tempo ...

  • No momento em que vamos pelos prados E o nosso amor é um terceiro ali, Que usurpa que saibamos Um ao certo do outro, Nesse momento, em que o que vemos mesmo Sem o vermos na p...

  • Deixa passar o vento Sem lhe perguntar nada. Seu sentido é apenas Ser o vento que passa… Consegui que desta hora O sacrifical fumo Subisse até ao Olimpo. E escrevi estes versos Pra que os...

  • Não batas palmas diante da beleza. Não se sente a beleza demasiado. A beleza não passa É a sombra dos Deuses. Mexa-se embora a nossa estéril vida, Desdobre Éolo sobre nós seu...

  • Pobres de nós que perdemos quanto Sereno e forte nos dava a vida O único modo O único humano de a ter... Pobres de nós Crianças orfãs que mal se lembram De pai e mãe ...

  • Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas. Pouco pode o homem contra a externa vida. Deixa haver a injustiça. Nada muda, que mudes. Não tens mais reino que a doada mente. Essa, ...

  • Se já não torna a eterna primavera Que em sonhos conheci, O que é que o exausto coração espera Do que não tem em si? Se não há mais florir de árvores feitas Só de alg...

  • Não morreram, Neera, os velhos deuses. Sempre que a humana alegria Renasce, eles se voltam Para a nossa saudade.

  • Um verso repete Uma brisa fresca, O verão nas ervas, E vazio sofre ao sol O átrio abandonado. Ou, no inverno, ao longe Os cimos de neve, À lareira toadas Dos contos herdados, E um verso ...

  • Em vão procuro o bem que me negaram. As flores dos jardins herdadas de outros Como hão-de mais que perfumar de longe Meu desejo de tê-las?

  • O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo, Que es...

  • Não quero a fama, que comigo a têm Erostrato e o pretor Ser olhado de todos — que se eu fosse Só belo, me olhariam. O fausto repúdio, porque o compram. O amor, porque a...

  • Quer com amor, que sem amor, senesces Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.

  • Breve o inverno virá com sua branca Nudez vestir os campos. As lareiras serão as nossas pátrias E os contos que contarmos Assentados ao pé do seu calor Valerão as cançõ...

  • A folha insciente, antes que a própria morra Para nós morre, Cloé, Para nós, que sabemos que ela morre Assim, Cloé, assim Antes que os próprios corpos, que empregamos No...

  • In Flaccum Cuidas tu, louro Flacco, que cansando Os teus estéreis trabalhosos dias Darás mais sorrisos ao campo E serão mais altos os peitos de Ceres Põe mais vista em notares que te...

  • Diana através dos ramos Espreita a vinda de Endymion Endymion que nunca vem, Endymion, Endymion, Lá longe na floresta… E a sua voz chamando Exclama através dos ramos Endymion, Endymion… A...

  • Um verso repete Uma brisa fresca, O verão nas ervas, E vazio sofre ao sol O átrio abandonado. Ou, no inverno, ao longe Os cimos de neve, À lareira toadas Dos contos herdados, E um verso ...

  • Olho os campos, Neera Verdes campos, e sinto Como virá um dia Em que não mais os veja. Par de árvores cobre O céu aqui sem nuvens E faz correr mais triste A viva e alegre linfa. Mas por...

  • O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo, Que es...

  • Quer com amor, que sem amor, senesces Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.

  • A folha insciente, antes que a própria morra Para nós morre, Cloé, Para nós, que sabemos que ela morre Assim, Cloé, assim Antes que os próprios corpos, que empregamos No...

  • Diana através dos ramos Espreita a vinda de Endymion Endymion que nunca vem, Endymion, Endymion, Lá longe na floresta… E a sua voz chamando Exclama através dos ramos Endymion, Endymion… A...

  • Aqui, sem outro Apolo do que Apolo, Sem um suspiro abandonemos Cristo E a febre de buscarmos Um deus dos dualismos. E longe da cristã sensualidade Que a casta calma da beleza...

  • Em Ceres anoitece. Nos píncaros ainda Faz luz. Sinto-me tão grande Nesta hora solene E vã Que, assim como há deuses Dos campos, das flores Das searas, Agora e...

  • Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo. Tu não és mais que um deus a mais no eterno Pantéon que preside À nossa vida incerta. Nem maior nem menor que os novos deuses, Tua somb...

  • Sofro, Lídia, do medo do destino. Qualquer pequena cousa de onde pode Brotar uma ordem nova em minha vida, Lídia, me aterra. Qualquer cousa, qual seja, que transforme Meu plano curso d...